Comentário: O Pássaro Imagem do cabeçalho por gabrielzschmitz, licenciada sob a licença Creative Commons 4.0 Atribuição.


Este texto integra a sessão Comentários de Poemas do projeto Formação Literária e discute o poema O Pássaro, de Augusto Frederico Schmidt (1906–1965). A versão em LaTeX, com todo o material-fonte do estudo, está disponível em comentarios-poemas/o-passaro.


Sobre o Autor

Retrato de Augusto Frederico
Schmidt Augusto Frederico Schmidt (1906–1965).

Augusto Frederico Schmidt (Rio de Janeiro, 18 de abril de 1906 – Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 1965) foi poeta, editor, empresário, diplomata e homem público brasileiro. Filho de um imigrante judeu asquenaze alemão e neto do Visconde de Schmidt, iniciou sua trajetória no mercado editorial após atuar na Livraria Católica e, em 1930, fundou a Livraria Schmidt Editora.

À frente da editora, publicou as primeiras obras de autores que se tornariam fundamentais para a literatura brasileira, entre eles Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Lúcio Cardoso e Octávio de Faria. A Livraria Schmidt tornou-se um dos principais centros da vida intelectual carioca na década de 1930, servindo como ponto de encontro do chamado Círculo Católico, grupo informal que reunia escritores, jornalistas e pensadores ligados ao renascimento do pensamento católico no Brasil na época.

Paralelamente à atividade literária, desenvolveu uma carreira de sucesso como empresário, atuando nos setores editorial, de seguros, mineração, aviação e varejo. Também exerceu funções diplomáticas e foi assessor especial do presidente Juscelino Kubitschek, sendo tradicionalmente associado à criação do slogan “50 anos em 5”. Faleceu no Rio de Janeiro em 1965, deixando uma obra poética que permanece entre as mais singulares da literatura brasileira do século XX.


Por que este poema?

A escolha de O Pássaro dá continuidade à análise de Era um grande pássaro, poema de Augusto Frederico Schmidt já estudado anteriormente [1]. Nos dois textos, a figura do pássaro ocupa uma posição central, mas assume sentidos bastante distintos.

Em Era um grande pássaro, a imagem da ave está associada à morte, ao mistério e à cruz. Em O Pássaro, por outro lado, o pássaro aparece como figura de movimento, nascimento e transformação. Essa diferença torna os dois poemas especialmente interessantes quando lidos em conjunto, pois permite observar como Schmidt utiliza uma mesma imagem para construir experiências poéticas distintas.

A escolha de O Pássaro também se justifica pela forte presença de imagens ligadas à criação: trevas, águas, luz, vida e tempo. Essas imagens estabelecem uma relação particularmente significativa com o relato da Criação em Gênesis, que será o principal eixo da análise a seguir.


Texto

O Pássaro Augusto Frederico Schmidt, em Aurora Lívida [2], 1958.
O pássaro estremece a noite imóvel Com suas asas. O pássaro é o primeiro sinal de vida. É o primeiro som molhando o espaço. Abre-se na superfície escura uma leve ferida, Por onde começam a surgir luzes virgens, Que logo se enfloram, E no espaço, vigorosas e jovens, se atiram. São luzes frescas, que têm a forma inicial De lágrimas deslizando na face da sombra, Mas que nos campos celestes, Soltas e livres, tomam as formas de corcéis. O pássaro paira sobre o mar recém-nascido E inaugura o tempo. E frutificará Na eternidade prometida.

Outra publicação do poema em Poesia
Completa Outra publicação do poema, em Poesia Completa [3, p.~501].


Análise

A leitura de O Pássaro, de Augusto Frederico Schmidt, será orientada principalmente pela narrativa da Criação presente no livro de Gênesis.

Para as citações bíblicas, será utilizada a tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, baseada na Vulgata Latina [4]. A versão consultada está disponível gratuitamente em sua edição digital [5]. A seguinte imagem apresenta o exemplar físico utilizado como referência nesta análise:

Exemplar físico da Bíblia utilizada como
referência Exemplar físico utilizado como referência.

O poema constrói uma sequência de imagens que permite essa aproximação: a “noite imóvel”, o movimento, o surgimento da luz, as águas, a vida e, finalmente, a inauguração do tempo. A partir desses elementos, podemos observar como Schmidt reelabora poeticamente motivos associados ao relato da Criação.

A noite imóvel

Em Gênesis, a narrativa começa em um cenário marcado pela escuridão, pelas águas e pela ausência de uma ordem já estabelecida:

🕇 🕇 No princípio criou Deus o céu e a terra. A terra, porém, estava vazia e nua; e as trevas cobriam a face do abismo; e o espírito de Deus era levado por cima das águas. Gênesis 1:1–2, na tradução de Pe. Antônio Pereira de Figueiredo [4].

A imagem da terra “vazia e nua”, juntamente com as “trevas” que cobrem o “abismo”, estabelece um estado anterior à ordenação do mundo. O início de O Pássaro recupera essa atmosfera primordial, substituindo o “abismo” bíblico pela “noite imóvel”:

O pássaro estremece a noite imóvel Com suas asas.

A palavra “imóvel” não indica apenas ausência de movimento físico. Ela pode sugerir um estado anterior ao próprio desencadeamento da ordem e do tempo. Nesse sentido, a imagem permite uma aproximação, ainda que não uma identificação direta, com o conceito aristotélico de Motor Imóvel: aquilo que, não sendo movido por outro, constitui o princípio do movimento [6, Livro XII, 7]. Essa concepção seria posteriormente retomada por Santo Tomás de Aquino em sua Primeira Via, que parte justamente do movimento para chegar à necessidade de um primeiro motor [7, Primeira Parte, q. 2, a. 3].

A relação entre imobilidade e movimento é especialmente importante porque o poema parte da “noite imóvel” para introduzir imediatamente o movimento: o pássaro a “estremece” com suas asas. Não se trata de afirmar que o pássaro corresponda ao Motor Imóvel aristotélico, mas de observar a estrutura da imagem: a imobilidade constitui o estado inicial a partir do qual o movimento se manifesta.

O primeiro sinal de vida

Essa ruptura prepara a afirmação seguinte:

O pássaro é o primeiro sinal de vida. É o primeiro som molhando o espaço.

O pássaro não é apresentado simplesmente como uma criatura que surge em um mundo já constituído. Sua aparição coincide com o primeiro sinal de vida e com o primeiro som. O poema transforma, assim, a ave em um marco de passagem entre o silêncio inicial e uma realidade que começa a adquirir movimento.

A expressão “primeiro som” também estabelece uma aproximação com a linguagem de Gênesis. No relato bíblico, a criação é repetidamente introduzida pela fórmula “Disse Deus”. A palavra divina desencadeia a criação; em Schmidt, o primeiro som que rompe o silêncio é produzido pelo pássaro. A correspondência não é literal, mas permite perceber uma aproximação entre a manifestação sonora e o surgimento da realidade.

O surgimento da luz

A relação com o primeiro dia da Criação torna-se mais evidente quando surgem as primeiras luzes:

Abre-se na superfície escura uma leve ferida, Por onde começam a surgir luzes virgens,

Em Gênesis, Deus ordena:

🕇 🕇 Disse Deus: Faça-se a luz; e fêz-se a luz. Gênesis 1:3, na tradução de Pe. Antônio Pereira de Figueiredo [4].

Nos dois textos, a luz surge a partir de uma realidade inicialmente dominada pela escuridão. Schmidt, entretanto, substitui a ação direta da palavra divina por uma imagem de abertura: a “superfície escura” sofre uma “leve ferida”, através da qual as luzes começam a aparecer.

A escolha da palavra “ferida” é significativa. Uma ferida implica a ruptura de uma superfície; aqui, porém, essa ruptura é justamente o que permite o surgimento da luz. A imagem pode ser entendida como uma tradução poética da separação entre luz e trevas presente em Gênesis: aquilo que estava fechado é rompido, permitindo que uma nova realidade se manifeste.

O adjetivo “virgens” reforça a ideia de novidade. Não são simplesmente luzes que iluminam uma paisagem existente, mas luzes que aparecem como algo novo, ainda não experimentado. O poema produz, desse modo, a impressão de que o próprio primeiro dia está sendo criado diante do leitor.

A expansão das luzes

A transformação continua nos versos seguintes:

Que logo se enfloram, E no espaço, vigorosas e jovens, se atiram.

O vocabulário sugere crescimento e expansão. “Enfloram”, “vigorosas”, “jovens” e “se atiram” formam um campo semântico associado à vitalidade e ao movimento. A criação não aparece como um acontecimento estático, mas como uma realidade que se expande pelo espaço.

Essa ideia encontra um paralelo no terceiro dia de Gênesis, quando a terra produz vegetação e árvores frutíferas, cada uma contendo em si a possibilidade de reprodução:

🕇 🕇 Disse também Deus: Produza a terra erva verde, que dê a sua semente; e produza árvores frutíferas, que deem fruto, segundo a sua espécie, e que contenham a sua semente em si mesmas, para a reproduzirem sôbre a terra. E assim se fêz. E produziu a terra erva verde, que dava semente segundo a sua espécie; e produziu árvores frutíferas que continham a sua semente em si mesmas. E viu Deus que isto era bom. E da tarde e da manhã se fêz o dia terceiro. Gênesis 1:11–13, na tradução de Pe. Antônio Pereira de Figueiredo [4].

A aproximação torna-se especialmente interessante no encerramento do poema, quando Schmidt emprega o verbo “frutificará”. Assim como a vegetação de Gênesis contém a semente necessária à continuidade da vida, o pássaro que “frutificará” é associado a uma existência que não se encerra no instante de seu surgimento. A imagem da fecundidade desloca para o pássaro uma propriedade originalmente atribuída à terra e à vegetação: a capacidade de produzir e continuar.

Das lágrimas aos corcéis

As luzes passam então por uma nova transformação:

São luzes frescas, que têm a forma inicial De lágrimas deslizando na face da sombra, Mas que nos campos celestes, Soltas e livres, tomam as formas de corcéis.

Primeiro, as luzes assumem a forma delicada de “lágrimas” que deslizam sobre a “face da sombra”. Depois, nos “campos celestes”, transformam-se em “corcéis”. O termo “corcel” designa um cavalo veloz, especialmente um cavalo de batalha ou de grande vigor. A palavra acrescenta à imagem das luzes as ideias de força, velocidade e movimento.

A passagem da lágrima ao corcel produz, portanto, uma transformação de fragilidade em força. Aquilo que inicialmente escorre suavemente pela sombra passa a mover-se livremente pelo espaço celeste. A luz deixa de ser apenas manifestação e adquire dinamismo próprio.

A imagem também pode ser aproximada do quarto dia de Gênesis, quando Deus estabelece os luzeiros no firmamento:

🕇 🕇 Disse também Deus: Façam-se uns luzeiros no firmamento do céu, que dividam o dia e a noite, e sirvam de sinais nos tempos, as estações, os dias e os anos; que luzam no firmamento do céu, e alumiem a terra. E assim se fêz. Fêz Deus, pois, dois grandes luzeiros, um maior, que presidisse ao dia; outro mais pequeno, que presidisse à noite: e criou também as estrêlas. e pô-las no firmamento do céu para luzirem sôbre a terra, e presidirem ao dia e à noite, e dividirem a luz, das trevas. E viu Deus que isto era bom. E da tarde, e da manhã se fêz o dia quarto. Gênesis 1:14–19, na tradução de Pe. Antônio Pereira de Figueiredo [4].

Enquanto Gênesis apresenta os luzeiros como elementos responsáveis pela ordenação do dia e da noite, Schmidt transforma as luzes em imagens móveis, vigorosas e livres. A correspondência está menos na função exata das imagens do que na passagem da escuridão inicial para um espaço celeste povoado pela luz.

O mar e a inauguração do tempo

A presença do mar conduz o poema a seu momento decisivo:

O pássaro paira sobre o mar recém-nascido E inaugura o tempo.

O verbo “paira” retoma, de modo indireto, a imagem do espírito de Deus que se move sobre as águas no início de Gênesis. No poema, porém, é o pássaro que ocupa essa posição, sobre um “mar recém-nascido”. A escolha do verbo coloca a ave entre o movimento e a suspensão, entre o céu e as águas.

A posição do pássaro também é significativa quando comparada à ordem da Criação. Em Gênesis, as aves são criadas somente no quinto dia, depois da separação das águas e da criação dos luzeiros:

🕇 🕇 Disse também Deus: Produzam as águas animais viventes, que nadem nas águas; e aves, que voem sôbre a terra, e debaixo do firmamento do céu. Gênesis 1:20, na tradução de Pe. Antônio Pereira de Figueiredo [4].

Schmidt desloca a ave para um momento anterior: ela aparece sobre um “mar recém-nascido”, quando a paisagem ainda está sendo constituída. O pássaro não é apenas parte de um mundo já ordenado; sua presença acompanha a própria passagem para uma realidade organizada.

Essa antecipação prepara o verso “E inaugura o tempo”. Em Gênesis, a temporalidade da Criação é marcada pela sucessão de “tarde” e “manhã”, começando com o primeiro dia. Schmidt condensa essa ideia no verbo “inaugura”. O pássaro surge no momento em que a paisagem deixa de ser apenas espaço e passa a possuir uma sequência de acontecimentos.

A eternidade prometida

O poema termina projetando esse movimento para além do tempo:

E frutificará Na eternidade prometida.

O futuro de “frutificará” prolonga o acontecimento para além do instante presente. A “eternidade” desloca o poema da temporalidade recém-inaugurada para aquilo que a transcende. O movimento iniciado na “noite imóvel” não termina simplesmente com a constituição do mundo, mas é projetado para uma realidade que ultrapassa o próprio tempo.

A trajetória do poema pode ser compreendida, portanto, como uma passagem progressiva da imobilidade à eternidade:

$$\text{imobilidade} \longrightarrow \text{movimento} \longrightarrow \text{manifestação} \longrightarrow \text{ordenação} \longrightarrow \text{tempo} \longrightarrow \text{eternidade}.$$

Essa sequência aproxima O Pássaro da estrutura cosmogônica de Gênesis, sem fazer do poema uma simples paráfrase do texto bíblico. Schmidt retoma imagens fundamentais da Criação — as trevas, as águas, a luz, os luzeiros, as aves e a ordenação do tempo — e as reorganiza em torno da figura do pássaro.

Em Gênesis, a criação é ação direta de Deus, realizada por sua palavra. Em Schmidt, não há uma figura divina nomeada; a transformação é construída pelas imagens do poema, que conduzem da “noite imóvel” à “eternidade prometida”. O pássaro ocupa o centro dessa passagem, sem assumir propriamente o papel de criador.

Sua trajetória acompanha as principais transformações do poema: rompe a imobilidade inicial, acompanha o surgimento das luzes, paira sobre o “mar recém-nascido” e “inaugura o tempo”. No encerramento, o futuro de “frutificara” prolonga esse movimento para além do instante presente.

A aproximação com Gênesis permite, assim, compreender O Pássaro como uma representação poética da origem e da continuidade da existência. O pássaro concentra esse movimento ao atravessar as diferentes etapas da criação, da imobilidade inicial à “eternidade prometida”.


Referências

  1. Gabriel dos Santos Schmitz. Análise de “Era um grande pássaro”, de Augusto Frederico Schmidt. Português. 2026. url: https://github.com/gabrielzschmitz/flit/tree/main/comentarios-poemas/era-um-grande-passaro (acesso em 04/09/2026).
  2. Augusto Frederico Schmidt. Aurora Lívida. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958.
  3. Augusto Frederico Schmidt. Poesia Completa. Rio de Janeiro: TopBooks Editora, 1995, p. 693.
  4. Antonio Pereira de Figueiredo. A Bíblia Sagrada: traduzida em portuguez segundo a Vulgata Latina, illustrada com prefacções, notas, e lições variantes. Português. Lisboa: Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1794.
  5. Bíblia Traduzida. Bíblia Pe. Figueiredo. Português. url: https://bibliatraduzida.com/figueiredo/genesis/1 (acesso em 04/09/2026).
  6. Aristóteles. Metafísica. Português. Trad. Giovanni Reale. Vol. 2. Livro XII. São Paulo: Edições Loyola, 2014.
  7. Tomás de Aquino. Suma Teológica. Português. Trad. Vários. Vol. 1. Primeira Parte, questão 2, artigo 3. São Paulo: Edições Loyola, 2017.

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